O setor logístico é o coração pulsante da cadeia de suprimentos. Nele, a agilidade é uma métrica de sucesso: empilhadeiras cruzam corredores, operadores se deslocam rapidamente entre docas e paletes são movimentados contra o relógio.
No entanto, essa busca constante por eficiência esbarra em um dos acidentes de trabalho mais comuns e subestimados do setor: as quedas, tropeços e escorregamentos.
Em centros de distribuição (CDs) e armazéns, um piso escorregadio não é apenas um inconveniente; é um gargalo de produtividade e um risco real à integridade física do trabalhador. Para mitigar esse problema, a escolha do Equipamento de Proteção Individual (EPI) correto não pode ser baseada no empirismo. É aqui que entra a ciência dos materiais e as normativas internacionais, materializadas na certificação SRC.
O Cenário de Risco no Ambiente Logístico
Os pisos de galpões logísticos são projetados para suportar toneladas de carga, geralmente utilizando concreto usinado polido. Embora essa superfície seja ideal para o rolamento de paleteiras e empilhadeiras, ela se torna extremamente perigosa quando contaminada. E as fontes de contaminação são diárias:
- Vazamentos de fluidos: Óleo hidráulico de maquinários, fluidos de arrefecimento ou substâncias químicas de mercadorias avariadas.
- Condições climáticas: Água da chuva trazida pelos pneus dos caminhões nas docas de carga e descarga ou condensação em áreas de resfriamento.
- Detritos finos: Poeira acumulada e películas de sujeira que reduzem o atrito natural entre o calçado e o solo.
Quando um operador escorrega, há o risco de fraturas, lesões na coluna e, na pior das hipóteses, o trabalhador pode cair na rota de um veículo industrial em movimento. Para as empresas, o resultado se traduz em absenteísmo, processos trabalhistas e queda na moral da equipe.
Desmistificando a Certificação SRC
Para garantir que um calçado de segurança seja realmente eficaz contra quedas, a legislação e os órgãos de normatização técnica criaram testes rigorosos de coeficiente de atrito. A classificação de resistência ao escorregamento é dividida em três níveis: SRA, SRB e SRC.
Para compreender a força da certificação SRC, precisamos entender o que são os dois níveis anteriores:
1. Certificação SRA
O calçado é testado em uma superfície de piso cerâmico lubrificada com uma solução de lauril sulfato de sódio (detergente). O teste mede a aderência da sola tanto no plano reto quanto na inclinação do salto.
2. Certificação SRB
Aqui, o nível de exigência muda de cenário. O calçado é testado em uma superfície de aço inoxidável lubrificada com glicerina (óleo). Esse teste simula as condições mais críticas encontradas em indústrias pesadas e oficinas mecânicas.
3. Certificação SRC (O Padrão Ouro)
A certificação SRC não é um terceiro teste isolado, mas sim a combinação aprovada de ambos. Um calçado que possui o selo SRC passou com sucesso tanto no teste SRA (cerâmica com detergente) quanto no teste SRB (aço com glicerina).
Para o gestor de logística, exigir a classificação SRC no Certificado de Aprovação (CA) do calçado significa adquirir um produto versátil, capaz de responder muito bem tanto à umidade de uma doca em dia de chuva quanto a um eventual vazamento de óleo no meio do armazém.
A Engenharia por Trás do Solado SRC
Não se chega ao selo SRC por acaso. A física do calçado de segurança exige uma combinação inteligente de compostos químicos e design industrial.
O primeiro fator é o composto do solado. Materiais como o Poliuretano de Bidensidade (PU/PU) ou a Borracha Nitrílica oferecem uma flexibilidade natural que aumenta a área de contato com o solo. A densidade correta impede que a sola endureça demais em ambientes frios (como câmaras frias logísticas), mantendo a capacidade de aderência.
O segundo fator, e talvez o mais visível, é o desenho dos canais de escoamento (grip). Assim como os sulcos de um pneu de alta performance, os desenhos na sola de uma bota SRC servem para quebrar a tensão superficial dos líquidos.
Quando o trabalhador pisa, o peso do corpo canaliza a água ou o óleo para as laterais, permitindo que a borracha ou o poliuretano toque diretamente a superfície firme do piso. Se os canais forem rasos ou inexistentes, ocorre o efeito de aquaplanagem, e o tombo é inevitável.
Benefícios Econômicos e Culturais para a Empresa
Investir em calçados com tecnologia SRC para a equipe de logística traz retornos claros sobre o investimento (ROI):
- Redução do Custo de Acidentes: Menos afastamentos significam menor custo com substituições temporárias e estabilidade no Fator Acidentário de Prevenção (FAP).
- Aumento de Confiança: Operadores que confiam no próprio equipamento andam e trabalham com mais firmeza e rapidez, otimizando o picking e o packing.
- Durabilidade e Sustentabilidade: Calçados com certificação técnica elevada tendem a utilizar matérias-primas de melhor qualidade, o que estende o ciclo de troca e gera menos descarte de resíduos.
A logística moderna exige velocidade, mas a segurança deve caminhar no mesmo ritmo. Negligenciar o risco de escorregamentos é aceitar uma roleta russa operacional diária.
Proteger o trabalhador contra a falta de atrito é, em última análise, garantir que a engrenagem da sua empresa continue rodando com estabilidade, eficiência e segurança.






